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openend [ #001_MR ]

BPI_4107A cidade de Coimbra tomou a data do falecimento da rainha em Estremoz como sua, e foi a partir de então que o 4 de Julho se firmou como o dia da cidade do Mondego estabelecendo-se, para o efeito e praticamente todos os anos, um conjunto de festividades que intentam celebrar Isabel de Aragão como a rainha que foi santa. A todos os anos pares, sai a sua veneranda imagem de Santa Clara para a igreja do colégio da Graça, na rua da Sofia, de onde volta a afastar-se dias depois, para regressar por dois anos ao seu natural porto de abrigo.

Coimbra tem mantido viva esta riquíssima personagem histórica que veio acolher-se à cidade em vida, e depois da morte, instituindo com ela uma relação de encontro entre o sagrado e o profano.

É com base neste encontro, e nas múltiplas realidades que ele invoca, que a IC Zero decidiu juntar-se às comemorações citadinas em 2013, recuperando um projecto que nasceu no ano par, no passado 2012, pretendendo transferir o corpo da Isabel Rainha, revestido pela história na aura da sua imortalidade, para outra dimensão, ou para a sua dimensão estética e artística, permitindo a reflexão sobre a sua própria importância no contexto material e espiritual de Coimbra no século XXI.

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O projecto artístico openend [ #001_MR ] visa comemorar a figura que patrocinou uma vasta plêiade de artistas, que ajudou a erguer um dos mais notáveis mosteiros medievais portugueses (Santa Clara-a-Velha, junto aos Paços onde viveu), que criou modelos escultóricos que fizeram esteira na região, estimulando a cidade a tornar-se num dos mais importantes centros de produção artística nacional. Para além desta importância cultural que Isabel de Aragão acolhe, este projecto também reflecte sobre a espessura de Isabel de Aragão enquanto mulher e enquanto entidade que joga com o poder da imortalidade.

Efectivamente, as obras de arte envolvem-se com a realidade e com a irrealidade, por partirem do mundo para a criação de outros mundos, refeitos e inventados. A realidade que importa e que deu vida ao projecto openend [#oo1_MR] imprime-se na figura de Isabel de Aragão e nos insondáveis mistérios que a fazem sobreviver no tempo, mostrando-nos, de quando em vez, a sua incorruptibilidade sobrevivente através da sua mão, abrindo o discurso à reflexão sobre a dicotomia mortalidade-imortalidade. Trata-se de um assunto caro ao imaginário por construir um ponto fulcral da existência do homem enquanto indivíduo que desaparece.

Com esta mostra de artes visuais oferecem-se à cidade novos pontos de vista sobre Isabel de Aragão, uma profícua patrona de obras de arte durante a Idade Média e que, pela sua valentia enquanto mulher conciliadora e solidária, viu nascer um vasto grupo de lendas que lhe imortalizaram o nome. A sua carne, essa, tornou-se enigmaticamente imperecível, fazendo jus à ideia de que um belo espírito se dá a conhecer através da beleza do seu corpo.

Texto de Carla Alexandra Gonçalves
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 4 de Julho)