• Photobucket

Home / Letras / Profissão: Alfarrabista

Profissão: Alfarrabista

BPI_3825

A Preguiça foi falar com o alfarrabista Miguel de Carvalho, que nos mostrou a sua livraria com a maior dedicação. Alertou-nos para o facto de uma livraria alfarrabista não ser um Museu. Aliás, muito pelo contrário, Miguel gosta que as pessoas toquem nos livros em vez de perguntarem se o podem fazer. Os livros têm e dão vida, pois então!

Quando e como começou a sua actividade de alfarrabista?
Surgiu em 1994. Eu era estudante em Lisboa e frequentava livrarias alfarrabistas. O contacto com os livros antigos veio mais ou menos nessa altura. Tinha também começado, por brincadeira e juntamente com o filho de um grande livreiro de Lisboa, a comprar livros pela via particular. Chegava a casa e mostrava as aquisições aos meus colegas de apartamento e via o entusiasmo deles, muitas vezes superior ao meu (risos). Mais a sério foi em 1995 quando num período de férias vim a Coimbra à procura de livrarias alfarrabistas e me apercebi que não havia livreiros como havia em Lisboa, quer em abundância, o que é compreensível, mas também em qualidade. Isso surpreendeu-me e coloquei logo a questão: porque não haver em Coimbra uma livraria da forma que se trabalha em Lisboa? E assim foi. Eu tinha o know-how, os contactos, a noção de como as coisas se movimentavam e iria vender as aquisições que fiz na altura. Apresentei uma carta de despedimento, arranquei e foi até hoje. Já lá vão dezoito anos. Comecei na Rua de Tomar, onde estive até 1998, a seguir passei para a Ferreira Borges até 2011 e depois encontrei este espaço, que andava a namorar já há algum tempo, confesso. E consegui concretizar um sonho que era ter uma livraria onde eu pudesse receber pessoas, não só para comprar livros, mas também para falar, partilhar, uma espécie de facebook mas em carne e osso.

Existem em Coimbra muitos coleccionadores ou bibliófilos à procura de livros antigos e/ou raros?
Em Coimbra não. Na razão proporcional do número de habitantes, não justifica haver muitas livrarias alfarrabistas em Coimbra, porque também não há muitos coleccionadores de livros. Há gente que compra livros, com certeza, que se interessa, mas não são só colecionadores. Há estudiosos, há investigadores e isso é um nicho que também me interessa, não é só o livro como objecto de colecção. Tanto que hoje em dia há poucos bibliófilos novos, por razões económicas e também porque as novas tecnologias de certa forma os vai dispersando noutros sentidos e vai concentrando as suas energias noutras direcções. Contudo, eu não vivo só de gente de Coimbra. Eu estou estabelecido em Coimbra mas vendo para o mundo. Há colecionadores no estrangeiro que nos compram livros, a internet serve para pôr os livros lá fora, para encontrar esses colecionadores. E serve igualmente de mercado de entrada.

O que mais é procurado aqui?
Eu trabalho muito a literatura portuguesa do século XIX e XX, entrei por essa linha. Mas não nos é permitido haver uma especialização em Portugal porque não há mercados para especializações, temos que ser generalistas. Porque se nos concentrarmos num nicho, a sobrevivência nem sequer é garantida, temos de nos dispersar. Mas há áreas que gostamos mais de trabalhar e a literatura portuguesa dos séculos XIX e XX, em especial as vanguardas literárias do século XX, é onde trabalho com mais afinco.

BPI_3880

E consegue caracterizar um público-alvo?
É mais fácil falar de quem são as pessoas que não me procuram. Porque se formos a falar das pessoas que me procuram, procuram desde sapateiros, a médicos, a deputados, a empregados de cozinha, há uma panóplia grande. Agora, quem é que não me procura? Estudantes, por razões óbvias, porque o dinheiro só serve para as cervejas e os académicos, porque têm os livros nas bibliotecas e não precisam dos livros para estudar ou trabalhar, têm-nos de forma gratuita. Contam-se pelos dedos de uma mão os professores universitários da Universidade de Coimbra que vêm à minha casa. É a realidade. Os que vinham, já faleceram, eram os clássicos professores catedráticos das literaturas. Poucos são os que vêm aqui. Não encontro razão. Acho que é porque não necessitam.

Lembra-se de alguma venda extraordinária (por alguma razão)?
Já tive livros muito raros. No meu currículo de vendas já tive peças muito interessantes, que são ícones na História da literatura portuguesa. Não tive a primeira edição dos Lusíadas, infelizmente. Sei que existem duas em casas de particulares, mas nunca transaccionei nenhuma. Mas tive peças importantes e muito raras. Posso falar na Infanta Capelista, que é do Camilo Castelo Branco. É um livro de que só se conhecem quatro ou cinco exemplares originais. Já tive a primeira edição do Amor de Perdição. Já tive um livro importante da literatura portuguesa, Mensagem de Fernando Pessoa, com dedicatória do Fernando Pessoa. Já tive o famoso Portugal Futurista que foi destruído à saída da tipografia pela polícia política. Já tive o célebre Manifesto (Anti-Dantas) do Almada Negreiros. São assim vendas extraordinárias. Já tive alguns livros do século XVI portugueses, são muito raros. Dezoito anos já permitem muita coisa. Mas dá-me tanto prazer vender um livro de dois euros como vender um livro de mil euros. Tenho livros do século XVII e XVIII por 20 euros e tenho livros do século XX por 200 e 300 euros. Há a tendência a pensar-se que o que é antigo é valioso, mas não. A importância na cultura, a raridade e o estado de conservação são factores de valorização. E depois claro, se for uma edição original valoriza ainda mais.

Qual o livro mais antigo que tem aqui na livraria?
O mais antigo que tenho aqui é um livro quinhentista, impresso em 1590. É de um autor português, António Gomes, que foi professor na Universidade de Salamanca. Este livro trata do poder, quando este passou a ser também poder local, municipal, houve uma série de alterações na lei e é dessas alterações que este livro fala. O autor é português, pouco se sabe dele, sabe-se que nasceu em Portugal, o ano em que nasceu, mas não se sabe mais nada.

BPI_3891

E qual o mais raro?
Tenho alguns livros importantes. Tenho o periódico O Diabo, que foi por onde passaram os grandes literatos e as grandes polémicas do século XX, por exemplo com o Álvaro Cunhal. Tenho a revista Presença, que é também uma revista de topo na modernidade literária portuguesa, tenho-a quase completa. Depois tenho livros com poemas de poetas aqui da região, do Carlos Oliveira, do Afonso Duarte, do Ferreira Monte. E quando digo livros com poemas são poemas manuscritos. Portanto, para além da poesia impressa ainda tem um poema no frontispício, com uma dedicatória. Isso valoriza. Demostra e é testemunho de uma relação entre o autor e o destinatário do livro. É um livro que tem sempre duas histórias, a que está impressa e a que não está. E os livros antigos permitem isso, contar-nos mais histórias, que muitas vezes são fantásticas e que têm um valor inerente, não o económico.

Que eventos costuma promover?
Este espaço permite-se a tertúlias e desde o ano passado comecei a organizar aqui na livraria tertúlias literárias. Fazemos também apresentações, lançamentos de livros ou simplesmente reuniões em torno da poesia. Também faço exposições de pintores amigos aqui de Coimbra e não só. Este Inverno promovi uma actividade curiosa chamada “O Adro às sextas”, depois das seis. Eram temas livres escolhidos pelas pessoas, nomeadamente sobre autores.

Esta profissão exige algum (ou alguns) traço específico de personalidade?
É preciso não ser informático-dependente. É óptimo utilizar a informática como uma ferramenta de auxílio, mas é preciso folhear os livros, ler os índices. E essa é uma ferramenta, um procedimento importante nos livreiros, ter ideia do que é que os livros tratam. Não é preciso ser nenhuma enciclopédia, mas é preciso o discernimento de saber do que trata o livro. É preciso essencialmente amor pelo livro. Um livro usado chega-nos sempre às mãos com alguma mazela, ou não, mas pode acontecer, e começam aí as manifestações de carinho: vamos tratar dele, limpá-lo com um pincel, pô-lo mais apresentável com pequenos cuidados. E é importante alimentar essa relação. Por fim, tem de se ter sentido de organização.

No seu ponto de vista, como se encontra a actual situação das livrarias alfarrabistas em Portugal?
Sinto que há uma faixa de pessoas que me compravam livros e que agora não compram. Hoje em dia é por falta de dinheiro, mas há uns dois ou três anos era mais por receio, porque o dinheiro que sobrava ao final do mês para comprar livros não se gastava, havia medo em consumir. Hoje é mesmo menos dinheiro. No entanto, com os livros mais caros basta às vezes fazer um ou dois telefonemas e estão vendidos, já os mais baratos são de difícil venda. É como nos carros, vendem-se as altíssimas gamas.

Acha que o livro vai desaparecer?
Nunca. O livro que é impresso hoje pode desaparecer por má qualidade do papel, que pode não ter durabilidade. Os livros que me chegam às mãos do século XV e XVI eram feitos em papel que tinha linho e resiste ao tempo, às intempéries. Se as novas tecnologias vêm substituir o papel? Não, são uma ferramenta alternativa. Há um prazer ao mexer e ao sentir o livro. E haverá sempre bibliófilos, que até podem não ter grande poder de compra, mas que são sensíveis ao livro. E esses haverá sempre, estou seguro.

Miguel de Carvalho Livraria
Adro de Baixo, nº. 6

Entrevista de Carina Correia
Fotografia de Bruno Pires

 

(Publicado a 4 de Julho 2013)