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Déjà Vu e New Cross

BPI_1895Entre 1 e 29 de Junho de 2013 decorrem, nas salas do Espaço Artes Multimédia e Performance, em Coimbra, duas exposições de José Carlos Nascimento: Dejá Vu e New Cross.

A primeira exposição (Déjà Vu) resulta de um projecto do pintor José Carlos Nascimento realizado em Coimbra e materializado num conjunto de várias fotografias a cores de formato circular que encenam quadros que o artista tinha já visto naquele lugar, retomando-as. Trata-se de um grupo de imagens soberbo pela beleza das configurações e, especialmente, pelas cores e pela luz que o enformam. As alusões ao classicismo são claríssimas, referenciadas no formato das peças, em tondos renascentistas, na densidade meiga da luminosidade, nas escolhas cenográficas e na paleta de cores que nos sugerem transparências e finas velaturas de tinta.

As fotografias possuem um temperamento marcadamente pictórico, trasmudando a leitura subjectivada que se convida a percorrer as peças, cada uma, como se se empreendesse uma viagem no tempo, quebrada apenas pelo facto das personagens possuírem um corpo contemporâneo.

É por todos estes motivos que este conjunto de retratos espaciais nos oferece ao olhar uma sensação de tranquilidade, contrastando com a rapidez da vida, evocando um mundo natural cálido e apaziguador, quase ideal e paradisíaco, imensamente organizado, simétrico e puríssimo, arrancando-nos da realidade para que possamos experimentar, o poder norteador da criação.

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New Cross consubstancia um projecto, ainda em desenvolvimento, de José Carlos Nascimento e do professor e fotógrafo grego Achilleas Tilegrafos. A ideia geratriz é dar um novo rumo a um conjunto de imagens fotográficas sem leitura que, integradas, podem alcançar múltiplos significados. A série de peças alude à cidade e a espaços, tanto quanto a pormenores de realidade que ganha corpo e expressão apenas no momento em que chega à recepção ou à leitura.  Desintegradas, estas peças não possuem um discurso concatenador. Incorporadas em pares autorais, formando sempre duplas de José Carlos Nascimento e Achilleas Tilegrafos, as imagens convidam a novas revelações que o leitor constrói, tentando dar sentidos aos dípticos configurativos que os autores criaram de forma aleatória.

Trata-se de uma reflexão sobre a criação e a leitura, ou sobre a imagem-criação e a imagem-recepção que estimula a teoria e a prática artística, e que gera discursos por vezes tão dissemelhantes. A intenção do artista, na sua prática, prender-se-á será sempre com a construção de um discurso com um sentido para leitura ou, por outro lado, essa construção parte do espectador que, na presença de uma obra, procura determinar caminhos de leitura que o conduzam à possibilidade de um discurso? A proposta deste projecto estabelece-se a partir desta inquietude: os sentidos da recepção podem, justamente, ultrapassar a ideia e a realidade criativa de per se

Texto de Carla Alexandra Gonçalves
Fotografia de Bruno Pires

(Publicado a 27 Junho 2013)